domingo, 14 de janeiro de 2018

Uma questão de identidade


Tem havido pouca bola na Tasca, lá isso é verdade. Em boa parte, a culpa é do Cavani. Ao ritmo frenético a que a nossa equipa tem jogado, têm sido gravadas, editadas e publicadas jornadas do mais melhor bom podcast do Mundo, de entre aqueles  em que eu participo. No meio de muito disparate e da mais completa baderna, quase tudo o que tenho para dizer acerca da bola fica por lá.

Confesso que me tem dado um gozo imenso, este estado de coisas. Não só porque gosto genuinamente de me pôr na palhaçada com os Jorges, mas também porque isso me tem permitido ir investindo algum tempo em "projetos" como The SEDCAS Experiment. No fundo, o tipo de coisas para que "A Tasca" nasceu.  

Só que quase não é tudo. E esta manhã, ao ler o desportivo, uma declaração do à partida derrotado Abel Ferreira juntou-se a um dos temas do último Cavani e pensei: olha, dava um post. Resisti até agora, ao final do Liverpool x City e a uma volta pelas reações da minha malta naquela coisa do pássaro azul. Pumbas, uma posta de pescada eu ainda aguento calada, agora duas? No can do.

Ao fim ao cabo, a identidade da Tasca é também bola, certo? E mandar vir, de uma maneira geral...

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O bom do Abel parece que, num intervalo entre lamber o cu ao Sonso e fazer-se a um lugar no 5LB, disse qualquer coisa como: Quando uma equipa tem identidade, todos sabem o que vai fazer. O homem estava a justificar o facto de o 5LB ter, supostamente, conseguido anular a sua equipa. Ainda ontem tinha estado à conversa com os Jorges acerca da beleza da versatilidade do FCP de Conceição. Beleza fui eu que lhe chamei. E ao ler o tal do Abel, pensei: Ai ca burro, identidade não tem nada a ver com previsibilidade.

E não tem! Admito que toda a gente saiba pouco maijómenos como é que vai jogar uma equipa de Guardiola. Por norma, os jogadores são tão bons que, ainda assim, é complicado impedi-los de ganhar. O FCP de Lopetegui, por exemplo, aplicava sempre o mesmo sistema, qualquer que fosse o jogo, o campo ou o adversário. Podem ser equipas com identidade. Ou não. O que eu acho é que a identidade da equipa não se define pela forma como joga sempre igual ou dentro do mesmo principio. Em meu socorro, o FCP de Sérgio Conceição.

Ninguém pode dizer que a nossa equipa joga sempre da mesma forma. Já fomos do pontapé para o quintal ao controlo em posse ao contra ataque puro e de volta ao chuto para a couve. No mesmo jogo, conseguimos andar às costas da técnica sobrenatural de Brahimi e às costas de Marega. Literalmente, no segundo caso. Mais ainda, conseguimos esta variação sem mudar de jogadores. Ou mudando muito poucos. Até porque não temos mais. O principio básico de chegar à baliza e terminar cada jogada com um remate, está lá, mas o método...

Os nossos adversários podem supor como vamos abordar determinado desafio, mas desconfio que terão sempre a pulga atrás da orelha. Porque pode muito bem ser como eles pensam ou então não. E então não, não espantaria que fosse o exato contrário. Altura em que podem meter o plano de jogo no real entrefolho do olho do cu e desatar a rezar aos Santinhos da sua devoção.

Quer isto dizer que o FCP é uma equipa sem identidade? Na minha opinião, nem lá perto. Pelo contrário, é uma equipa cheia de identidade e com uma personalidade alicerçada nos valores tradicionais do "Ser Mesmo Porto". Sem desenhos. A característica camaleónica é uma parte dessa identidade. Somos raça, espírito de superação, fé, ambição e capacidade de adaptação. Faz parte do que somos que não saibam como vamos ser. Aprende, oh Abel.

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Pela Velha Albion, uns vermelhos estavam a ganhar cátrum a uns azuis. Só por isso, já devia desagradar ao Universo portista inteiro. Dá-se o caso de serem os próximos vermelhos que temos que encavar. Ui, o apocalípse, o drama, a tragédia. Vamos ser violados sem misericórdia pelos trezentos de Termópilas com as suas espadas ensanguentadas. Ai os nossos ricos rabiosques.

Depois, foi-se a ver, aquilo ficou quatro a três, pelo que se não fosse um disparate muito jeitoso de um ex-lampião, teria acabado empatado. Em casa dos vermelhos, que são uma bela equipa, cheia de grandes jogadores, e que marca golos tão depressa como os sofre.

Os que já passaram aqui algum tempo ao balcão, sabem que N-U-N-C-A me sinto derrotado antes de jogar. Ora, na verdade, a maior parte das vezes em que o FCP perde eu não me sinto derrotado. Some you win, some you learn. Portanto, não meujamiguinhos, não aceito que tenham medo de ser humilhados em Anfield. Ainda menos aceito que dêem por garantido que isso acontecerá. 

Pensarem que isto são favas contadas para o lado dos vermelhos, é não terem - ainda! - percebido patavina da identidade da vossa equipa. Parecem o Abel, foda-se!

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Agora façam-me um favor - podem tirar o som, se vos for insuportável - e VEJAM ISTO. All are one! Se não se emocionam com isto, é muito possível que estejam, de alguma maneira, mortos...
Há esperança!

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Notas para uma comédia portuguesa



Cenário: Um parlamento. Em cada extremidade do palco, um coro em forma de bancada.

ATO ÚNICO

(Abrem-se as cortinas, a luz incide exclusivamente no centro do palco, num homem de calças e casaco de abas de grilo azul petróleo, com lantejoulas prateadas, e cartola vermelha, igualmente em lantejoulas. Uma bengala branca e botas de plataforma, também brancas, com solas vermelhas. Cai um microfone de fio do alto da cena. Artur Albarran grita para o microfone.)

- Portuguesas e portugueses, bem-vindos à vossa vida. Hoje, o combate fratricida, a batalha sem tréguas, a luta sem quartel, o drama, a tragédia, o horror. Legaliza-se ou não se legaliza?

Quem quer saber se os bancos já voltaram a incentivar o consumo desmedido e irresponsável, quem se rala com jogos de futebol comprados, quem quer saber das promiscuidades, do chico-espertismo, do tráfico de influências, do dá-cá-o-meu-antes-que-se-acabe, dos Vieiras, uns Silva e outros Filipe, dos Frasquilhos, dos Engenheiros, da mui rara alta costura, do Século em que vivemos, das bombas de hidrogénio, dos loucos no poder, da terra queimada? (Cala-se e olha de uma ponta à outra a plateia. Espera-se que haja silêncio.)

Ninguém, pois claro. Vamos ao que nos importa. Senhoras e senhores, meninos e meninas e selvagens de todas as idades, convosco os da Esquerda e os da Direita. (Iluminam-se os coros nos dois flancos do palco, trajando conforme será descrito. Artur Albarran retoma a narração, usando a bengala para apontar,)

No canto direito, de camisolas às bolinhas amarelas, calções verde choque e pantufa de pelúcia cor-de-rosa, os Estúpidos. (Aplausos e gritos de incentivo)

No canto esquerdo, de pijama macacão arco-íris, mais Estúpidos. (Aplausos e gritos de incentivo. Nota: garantir igual intensidade em relação aos anteriores concorrentes)

(Apagam-se as luzes. Acende-se apenas o foco superior, iluminando o coro da esquerda)

- Devemos legalizar! (Gera-se burburinho concordante.)

- Eu sou contra. (Empurram o velhote para fora do coro.)

- Se és contra, tens que sair daqui. E não podes ser contra. Se estás na esquerda, tens que ser a favor.

- Porquê?

- Olha, boa pergunta. (Conferenciam uns com os outros, coçando as cabeças) Não sabemos porquê, mas é assim que está escrito, é assim que deve ser. Já és a favor?

- Não, continuo contra. Para opiáceo já basta a religião, companheira camarada. E porquê isto agora?

- Porque diz que é melhor fazermos qualquer coisinha que nos mantenha a aura cool que gostamos de ter. Já sabes que isto de ser Poder retira algum glamour. Pronto, lembramo-nos do chamom.

(Uma das da trupe de macaões desce do coro, ao encontro do velhote. Fala-lhe de forma condescendente.)

- Oh, sabes, avôzinho, a malta gosta de fumar umas brocas enquanto discute coisas nas reuniões.

- A revolução? A clandestinidade? A luta do proletariado?

- Hã? Não, pá. É mais férias e onde se come bem e barato e assim. Para além de que dá um ar bestialmente progressista isto das legalizações generalizadas, tájavêr? Está bem que para ti deve ser chato, por que lá se vai a clandestinidade e depois não tens nada que dizer. Para não dar muita cana, vamos por isto da medicina. Ainda por cima, vê lá tu bem, faz sentido! (Dá uma palmada nas costas do outro.) É preciso ter sorte, hein? À pala disso, incentiva-se o cultivo, esquece-se o consumo e fica a gente à vontade. Já ando de olho numa rede de coffee-shops.

- Então e porque não dizem logo as coisas assim?

- Olha, boa pergunta. (Vira-se para o coro, à espera de resposta. Todos abanam as cabeças que não.) Não sabemos, deve ser porque sim, o hábito de não dizer as coisas como elas são e isso tudo. Já és a favor?

- Não. (Apanha um chuto no rabo. A moça volta a subir ao coro.)

(Apagam-se as luzes. Ouve-se uma gargalhada coletiva do outro lado do palco. Ilumina-se o coro da direita. Riem agarrados à barriga.)

- Oh coisinho, que estás tu a fazer? (Um virado para outro que fuma um cigarro de enrolar.)

- A fumar uma ganza, porquê? Há que manter os hábitos dos nossos ajuntamentos, não? Acho que ainda não chegaram os franjinhas. Esses é que trazem a coca. Para já, só há disto, amanha-te. (O outro dá-lhe uma sapatada na mão.)

- Estúpido, pá. Então não vês que agora não se pode? Por causa disto da legalização. Temos que encontrar argumentos científicos contra.

- Oh, isso é fácil. Nem valia a pena ter desperdiçado erva tão boa. Diz aos tipos que aumenta as tendências suicidas e dá cabo da cabeça aos indivíduos. Parece que ficam com uma gandamoca, pronto.

- Ou então bêbados. O vinho também fájisso, poi'faz?

- Ya, bem visto, foda-se. Mas fica a pessoa agarrada à droga, é uma chatice para se ver livre daquilo.

- Como com os antidepressivos, calmantes, analgésicos, soporíferos e tutti quanti?

- Ya. E o vinho. Foda-se. Olha lá, então e se fossemos a favor?

- Não podemos. Se fossemos a favor tínhamos que estar do outro lado, não podíamos estar aqui à direita.

- Porquê?

- Olha, boa pergunta. (Conferenciam uns com os outros, coçando as cabeças) Não sabemos porquê, mas é assim que está escrito, é assim que deve ser. Porque sim, o hábito de não dizer as coisas como elas são e isso tudo. Já percebes?

- Não.

- Então és comunista. (Dá um chuto no rabo do outro.)

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quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

The SEDCAS experiment III: A segunda morte de Ludemilo Silva

NOTA PRÉVIA: The Sedcas experiment será(?) um conjunto de textos de dimensão indeterminada, inspirados por, feitos a partir de e em torno de imagens do grande SEDCAS. Este formato blogueiro e a pouca destreza do dono do tasco ao nível da cibernética, não favorecem as verdadeiras estrelas deste e dos próximos(?) posts desta série: as fotografias. A solução é mesmo saltarem para o site e deliciarem-se. E contratarem o moço, se for caso disso. Sim, ele paga pela publicidade.


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Tirando o facto de estar morto, Ludemilo Silva era um homem francamente vulgar. Nem bonito, nem particularmente feio, mediano em todos os aspetos exteriores da sua inexistência. 

De tal maneira que em certa ocasião, posto por desgraçada coincidência numa daquelas linhas de reconhecimento de criminosos, metade das testemunhas o apontaram culpado, por vergonha de não saberem quem teria sido o malfeitor que atentara contra a lei, mesmo defronte dos seus narizes. Ora - pensaram - pode muito bem ter sido aquele, não estranharia se fosse. A outra metade de acusadores foi igualmente incapaz de determinar o culpado. Puderam apenas jurar a pés juntos que Ludemilo é que não fora. Não - argumentaram - um tipo deste modo vulgar não teria sido, que daria logo conta dele, tão parecido que é com boa parte dos meus vizinhos. Pelo sim, pelo não, a autoridade decidiu prendê-lo por algum tempo. Até para que não desse a ideia de terem estado somente a desperdiçar o rico tempo do transeunte e o precioso dinheirinho do erário régio. Lá naquela terra havia um Rei, já se vê.

No dia em que foi libertado, embora ninguém se lembre dele naquela prisão, Ludemilo foi bafejado pela infelicidade de bater com a cabeça no suporte do chuveiro e assim se feneceu. É certo que era um banho público, mas ninguém, do Guarda Retretes às mui infelizes senhoras da limpeza, se quis meter na morte do homem. Deixá-lo estar, é uma pessoa como a maioria delas, nenhuma diferença. Se lhe deu para se deitar um pedacinho, fecha-se a porta deste cubículo. Já é tempo de nós, os iguais a todos, sermos uns pelos outros, apre! Cubículos é que não faltam, vamos agora incomodar o senhor. 

Foi portanto já morto que Ludemilo se voltou a vestir, com muito gosto em usar a roupa interior nova que comprara especialmente para aquela ocasião, e a sair fresco e perfumado para o resto da sua morte.

Se pensam que a tristeza encharcou os Silva desta casta de Silvas, sabei que estais basto enganados. Dá-se o caso de ser este o último espécimen de um modesto ramo Silvesco. Ou seja, muito pelo contrário, avisados da forma que se avisam os mortos do falecimento dos seus mais queridos - não, não posso saber qual é, pois eu próprio me encontro consistentemente vivo, estou em crer - os Silva festejaram rijamente a breve chegada do marido, filho e irmão que tanto lhes vinha faltando. E respiraram aliviados, por se ter ele, um homem tão bom, visto livre do mal da vida. Enfim, basta morrer para se ter estado vivo, essa é que é essa.

Já percebem o imenso desgosto que a todos assolou, ao darem-se conta de que, por alguma idiossincrasia do sistema, Ludemilo era morto mas não trasladado para o lado certo do Universo. Isto é, para todos os efeitos, os Serviços consideravam-no vivo, pelo que não havia remédio para a família senão esperar que alguém do Mundo dos Vivos se decidisse a declará-lo morto. O que prometia ser uma longa espera. Mais unidos do que nunca, os Silva transformaram Ludemilo num mártir lá do lado dos mortos, com direito a velinha em frente à sua fotografia - a primeira de todas no aparador da sala - e tudo, e fizeram as delícias dos noticiários vespertinos.

Devemos aqui deter-nos, mesmo que não façamos ideia - eu não faço! - de para onde vamos, e perceber que, por incómoda e injusta que seja, a situação faz sentido, de um ponto de vista logístico. Enquanto uns não derem baixa do artigo, não podem outros vir reclamá-lo. É certo que no caso vertente se podem criar alguns fantasmas e almas penadas, mas o imbróglio que causaria o fulano estar em contacto com duas estruturas sociais, uma viva e outra nem por isso, seria infinitamente maior. Às tantas, já ninguém sabia de que lado estava e desatavam pessoas a fazerem-se de mortas quando estavam em pleno viço e outros a desenterrarem os mortos para a ceia de Natal. Ou assim.

Ludemilo não teve outro remédio que não fosse desenvencilhar-se sozinho no meio dos vivos. Sem Estado nem Igreja, valeram-lhe uns poucos comerciantes amigos - um deles este vosso criado - que, reconhecidos pelo tratamento afável e esmerada educação de todos aqueles Silva, pouco se ralaram se estava o homem vivo ou morto e trataram de lhe assegurar uma austera sobrevida: um tabique numa cave, dois fatos velhos, uma camisa branca e outra azul, umas ceroulas e duas mudas de roupa de dentro, as refeições sempre na mesma mesa, ao canto. Muito não será, mas é quanto basta para poder a pessoa levar uma morte digna, enquanto não morre de vez.

Fora das horas rigorosas que se impunha para comer e se recolher, ninguém sabe ao certo por onde penava. Juram uns que o viram na audiência de programas de televisão da manhã, outros reconheceram-no num arrepio na espinha no autocarro, alguns cumprimentaram-no à saída do cinema e em casas de má fama. Houve até quem, rapidamente internado, o tivesse pressentido a tomar posse de Presidente de uma República obscura da Micronésia.

Entre dois copos de bagaço proibido, o décimo segundo e o décimo terceiro, um dia confessou-me que, por teimosa perseverança e alto berreiro, a sua eterna metade conseguira um regime de visitas precárias d'além túmulo. E assim preenchiam as tardes, ele de bandulho aviado com o prato do dia, ela de brilho intenso e paz imensa, sentados lado a lado, em bancos separados, sem se tocarem - por manifesta impossibilidade de isso acontecer entre seres de partes opostas do Universo - no miradouro onde fizeram, tanta vida atrás, as primeiras confidências:

- Sabes Ludemilo, eu não me importo se me tomares aqui, agora mesmo. Nem um pio, homem. Mexe-te, anda.

Também não conversavam, por serem distintos os comprimentos de onda em que se exprimem os Seres nos diversos patamares da sua localização corpórea. Os que insistem em ter corpo, está claro. Ficavam só todo o tempo que podiam assim, parados, lado a lado, respirando-se.

À frente o vale, o resto da Vida e a Morte inteira. Nunca foram vistos.


By Sedcas | www.sedcas.pt

Não posso já ser preciso no número de anos que a situação se demorou, pachorrando pelos Gabinetes dos Senhores Secretários de aquém e além Mundo, espreguiçando-se em cestos de "Entrada" e fazendo férias em cestos de "Para Despacho". Sei que um dia alguém chegou esbaforido e gritou da porta, brandindo um envelope timbrado da Casa Real:

- Morreu o Ludemilo! Mesmo! De vez.

A festa que foi. Ainda hoje me lembra. 


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domingo, 7 de janeiro de 2018

O 1º contra o 10º


Ontem jogaram os B. Pelo ruído  que se vai fazendo à volta do jogo, fiquei com a impressão que tinha percebido tudo mal e se tratara de uma partida importante e de um resultado soberbo. Fui confirmar: de facto, o primeiro, nós, recebeu o décimo. Digamos que foi assim um FCP vs Tondela. Ganhámos trêzum, o que é saboroso, porque todas as vitórias o são. Mas não extraordinário.

Bem sei que eram os lampiões e que são sempre jogos mimimimimimimi, fuck it. A diferença de valor, e de valores, entre as duas equipas é o que a classificação espelha. A grande novidade, é a mesma que acontece em 4 jogos por época - mais a final da International League - a esta equipa: a malta pôs-se atenta. Isso é bom, como a vitória e o facto de sermos líderes também nesta competição. Daí a pensarmos que o Folha já é o maior treinador do Universo conhecido ou que o Dalot devia sacar o lugar ao Ricardo ou ao Alex - ou a ambos, porque o miúdo sozinho faz as duas laterais e não é preciso mais ninguém - vai uma certa distância. Sosseguem lá as passarinhas um bocadinho. Pirilaus para dentro, vá.

Já que do jogo em si não há muito a retirar, dada a naturalidade do domínio, e sua materialização, da melhor equipa, foquemo-nos no que é verdadeiramente relevante neste escalão: os putos e o seu percurso até à A. E, se tiverem paciência, uma ou outra lateralidade. Esperai, abre-se um Mula Velha, pagam vocês, um queijinho de cabra e o salpicão alentejano em azeite que sobrou do Natal. O entretenimento para os dentes é por conta da casa.

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Toda a gente, e não só por cá, saliva pelo Diogo. Eu até pluralizava e dizia os Diogos. Porque são dois - na verdade três, mas trataremos disso noutra altura - pois é claro que o Costa não é um jogador mediano. Defender o penalty de ontem, valerá alguma atenção ao nosso jovem Baía. Sendo que não foi aí que ganhou o estatuto de especialista nestes lances, isso vem de trás. Podia assumir a baliza da A? Sim, podia. Mas não é preciso. Se fosse, como aconteceu com o Vítor, estou certo que não seria pelo Diogo que perderíamos o que quer que fosse. É um grande redes, vai ser um fabuloso redes. De equipa grande. Vou até mais longe: no dia em que este miúdo discutir o lugar com José Sá e João Costa, e não está longe, será uma questão de tempo até ser ele o titular. A menos que continuemos a comprar guarda-redes...

O Dalot, pois claro, o Dalot. Ele assiste com o esquerdo, marca com o direito, corre o jogo todo com os dois, corta de cabeça e empurra com os braços. É óbvio que não engana e parece - parece! - senhor de uma maturidade que lhe permitirá lidar com os pinguinhos que vai provocando em múltiplas cuecas. Já faz parte do plantel A, embora jogue na B. Como no caso anterior, não precisamos de saltar nenhuma etapa. As laterais da equipa principal estão preenchidas e bem entregues. Não fosse esse o caso, ou saia alguém, não podíamos estar mais tranquilos. Pessoalmente, preferiria que não acontecesse. Porque tenho receio - bastante até! - que não víssemos o Diogo a entrar, sorriso de puto estampado, no Dragão, na festa de apresentação da equipa. Na próxima época, não jogará na B.

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Ontem mesmo, enviei uma mensagem da categoria "Herege, quem te enfiasse uma chapada nesses dentzékera", para os restantes Cavanis: "Quase que valia a pena trocar de treinador da A, só para aproveitar este tipo". Era o Fede.

Vinde, vinde comigo até à primeira vez que me lembro de se ter falado deste catraio na Tasca. Janeiro de 2016. Como se vê, não foi nenhum caso de amor à primeira vista. Foi mais um caso de belatrancaketumandas, sim senhor. Aposto que abres a boca e estragas tudo. E a partir da época seguinte à que analisávamos então, o moço começou a botar faladura. Podemos ficar erectos a pensar nas vitórias que o Dalot nos vai dar e nas que o Costa nos vai guardar, mas o Fede é um orgasmo inteiro. Muitas outras vezes voltou o moço à Tasca e tenho a certeza de que a minha opinião acerca dele é mais do que conhecida pelos frequentadores. E por malta que tem tempo para ouvir podcasts também. Oh vidinhas sociais tristes, hein?

O Fede está fora daquele bloco dos Diogos, porque ao pensar na mensagem ali de cima, descobri que estou errado. Não, não é nada frequente, mas lá acontece. Aliás, posso estar errado, é mais isso. Ufa. Vai-se a ver, o Fede cabe no FCP de Sérgio Conceição. Como? Como alternativa a Brahimi.

Tenho-vos dito várias vezes que uma das nuances de que mais gosto no futebol dos A, é quando o bom do Yacine se solta da ala e vem para o meio. E para a outra ala. E para dentro da área. A la Messi. Aqui há atrasado, desconfiei do que andava o Folha a fazer ao Varela. Agora, já não tenho dúvida nenhuma: uma das lacunas do nosso plantel está resolvida. Quando não puder, e só quando NÃO PUDER, haver Brahimi, temos Varela. Sem um pingo de receio, sem uma hesitação. Com a equipa tão confiante, tão segura de si, tão oleada, o miúdo faz o lugar de cadeirinha. Haja tomates.

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Algumas reações ao jogo de ontem, deixaram-me triste. Porque detesto ver nos meus a hipocrisia que condeno nos outros. Um lampião foi (bem!) expulso e saiu do campo fazendo um 4 para a bancada: Assobiem à vontade, eu sou tetra. Pode ser treta, dá igual. O que pensaríamos nós se um dos nossos o fizesse no Seixal, cinco dedos esticados para a bancada? Nesse caso, porque fazemos de conta que o miúdo não merece o ar que respira?

Que foi? Irrita-me que venham com argumentos parvos, do tipo: ah, é assim que querem a pacificação blablablabla. Foda-se, que tem isso a ver? Nada! E vocês sabem, porque eu sei que vocês sabem. Sejamos melhores do que os outros, sim? Para os podermos criticar descansados.

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sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

The SEDCAS experiment II: A prisão em si

NOTA PRÉVIA: The Sedcas experiment será(?) um conjunto de textos de dimensão indeterminada, inspirados por, feitos a partir de e em torno de imagens do grande SEDCAS. Este formato blogueiro e a pouca destreza do dono do tasco ao nível da cibernética, não favorecem as verdadeiras estrelas deste e dos próximos(?) posts desta série: as fotografias. A solução é mesmo saltarem para o site e deliciarem-se. E contratarem o moço, se for caso disso. Sim, ele paga pela publicidade.

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Um dia eu fujo. Hoje não que chove. Em dias assim, prefiro ficar monótono no alto da colina, debaixo do coberto, a deixar-me perder na folhagem da árvore grande. Muito desatento ao que se passa em redor, absorto no gesto automático da mão à boca, o fumo expelido em argolas espessas.

À copa, posso chamar-lhe mar. Não há Chefe de Turno que o possa impedir. Esta liberdade da mente é o terror de toda a ordem. Entre duas fumaças, gostava que me viesse - só por um apetite - um poema sobre o mar: As ondas desbastam o penhasco. Uma coisa assim, agreste. Uma fúria de água contra rocha negra, o Mar do Norte a rebentar em vagas de Vikings na costa da Normandia. E eu Thomas, no rumor da baía de Swansea, assaltado por uma estrofe súbita, toda arestas.

À copa, posso chamar-lhe deserto. Talvez seja o gosto amargo da beata que me seca a boca, a garganta uma nuvem de fumo e pó. Não há Senhor da Portaria que mande no meu horário, posso desertificar-me em paz. Fingir que o mescal me alucina e o deserto de Sonora se enche de mulheres nuas, a pele de um negro tão negro e brilhante que é quase azul. Arrasto-me, uma personagem de Bolaño, à beira da morte, provavelmente colecionando cadáveres e telas de obscuros pintores impressionistas da América do Sul. Acenderia outro cigarro, se o tivesse, antes de deixar cair na areia manchada de sangue o coldre e me entregar nos braços suados da miragem.

É pena que chova. Este tempo deixa-me as pernas moles e a vontade embaciada. De outro modo - uma azeda presa nos dentes - aí me veriam, serpenteando monte abaixo, pela sombra do arvoredo, até à saída. Não sei porquê, mas vou de chapéu de palha e camisa aos quadrados, solta por fora das calças, sem botões apertados. O calor que deve estar. Desço devagar, mastigando os passos, sem pressa. Não há por que a pessoa se apresse, em tendo a certeza de para onde vai e de quem a espera. Vou lento, aproveitando o Verão, mas inexorável. 

Vou para ti, para esse sabor a sal e Sol, eterna praia, férias permanentes. Não há Doutor Diretor que me roube delas.

By Sedcas | www.sedcas.pt
Iria, digo, não fosse a chuva. Chovendo, não saio. Podias vir visitar-me.



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- Quer um cigarro, senhor Zé? - Diz-lhe, simpática, a bata branca.
- Pois claro, muito obrigado xôtôra.
- Enfermeira, senhor Zé, enfermeira. - Sorri-lhe. Ele faz um gesto com a mão: é a mesma coisa. Ela acende-lhe o cigarro.
- Quando nos despacharmos, podia fazer o favor de me levar para dentro. Esta chuva... - Hesita. - Parece que me deixa as pernas moles.




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A prisão em si: ...esquecido, adormeceu.