sexta-feira, 21 de julho de 2017

Prato do dia: Camarões com açafrão ( com nota histórica, uma coisa e um aviso )



É demasiado cedo na receita, está ainda o azeite a aquecer e a faca a picar a cebola. Só em Guimarães chegaremos à fase de acrescentar dois tomatitos - vê-se logo que não são os meus, pelo diminutivo - previamente limpos de peles e grainhas e muito picados.

Espraiemos a vista pelo castelo, berço da Nação, onde a mãe tanto moeu a paciência ao Afonso que levou uma galheta. Nisto, acrescentou-se uma pitada de açafrão. Na Tasca, a especiaria começa a juntar-se logo no refogado, para abrir. E porque fica a cozinha a cheirar bem.

( Interlúdio: Nota histórica

Dão jeito para inúmeras piadas e para o correr de pedaços de texto, como acima, este tipo de mitos históricos. 

Como a RTP só faz serviço para públicos de Leiria para baixo, fica a cargo da Tasca esclarecer - em benefício da sua vastíssima audiência, sobretudo da camada mais jovem - que raramente são verdadeiros.

É muito pouco provável que o Afonso tenha batido na mãe. Pode ter-lhe respondido torto e é certo que lhe palmou o Condado, mas não lhe acertou. )

De volta ao prato, espera-se que ainda em Guimarães o tomate se desfaça e fique o estrugido pronto para receber o verdadeiro conteúdo: Camarões. Em Portimão, eventualmente.

É atirá-los, tão bons quanto possível, para a panela e dar-lhes 2 minutinhos, diz que para tomarem gosto. É falso! Pelo contrário, o tempo serve para que eles, os bichos, contagiem o resto dos ingredientes com o seu sabor.

Já que estamos a banhos, demos à coisa um ar exótico, à conta de uma colher de café - para os meninos - de açafrão. Para gente crescida, é uma de chá e uma malagueta. 

Porque parar no Norte de Àfrica? Voltamos a casa, é tempo de recordar as viagens e reencontrar a família. Ora, tropicalizemos com umas boas goladas - a embalagem toda, pronto - de leite de côco. A cozinha enche-se de aromas e as papilas começam a salivar. É tempo de a pessoa se desforrar num queijinho, talvez em duas fatias de paio do lombo em azeite. Três e uma côdea, seja. E dois apalpões, para não te pores a passar por quem trabalha com essa roupa pouca.

Passaram-se uns quinze minutos nisto, estamos prontos a apresentar o tacho. É só acrescentar umas gotas de sumo de lima, apanhada no jardim, e coentros a gosto, pouco picados. O basmati já deve estar fora do lume há uns minutos.

Et voilá, mesdames et messieurs, está servido o prato principal. Precisou de bons ingredientes, de alguma alegria, uma pitada de carinho, uma colherada de ambição, da paciência suficiente e da Alma cheia do chamamento das origens. O sangue ferve, abram as cervejas!

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Uma coisa, repararam bem na diferença de jogar COM Oliver e SEM Oliver? Assustador... para já...

Se querem que se elabore acerca dos dois jogos no México, então dêem um salto aquiaqui e aqui. Digam que vão da minha parte, que costumam fazer desconto. Ou cuspir nas bebidas, depende dos dias... Mas hey, o que é a vida sem alguma emoção e incerteza?

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AVISO

Dedos em riste, vem aí o CAVANI

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terça-feira, 18 de julho de 2017

Sentido de humor e apitos



Sou um cachopo basto rezingão, embora disfarce muito bem. É apanharem-me num daqueles dias de alvorada às quatrimeia da noite e regresso à caserna às vintiduajoras, com mais de seiscentos quilómetros no lombo. Está claro que a minha beleza natural e o bom aspeto geral, ajudam muito a tornar mais agradáveis esses momentos de mau génio. A bem da verdade, diga-se que um espinho aqui e ali até contribui para manter a chama. Um homem não se quer easy to boredom. Se soubesse o que era um tipo charmoso, era capaz de aferir se isto contribuía para o meu charme ou não. Mas não sei, embora não tenha perdido a esperança de descobrir.

Já se sabe, no entanto, que o traço mais marcante é o meu espetacular sentido de humor. Para além da proverbial modéstia, naturalmente. Gosto do meu sentido de humor - da modéstia gosto menos. Havia de ser mais gabarola. - só que prezo ainda mais esta espécie de sinceridade compulsiva - acho que se chama estupidez - que me leva a confessar-vos que, ao nível do dito sense of humour, estou, na melhor das hipóteses, na média. Não serei um Depoitre, mas de André só tenho o apelido.

Basta olhar à volta e perceber que a humanidade é a espécie mais galhofeira de todas. Quais hienas risonhas, quais lémures às cabriolas, quais carago... Errr, quer dizer, em causa própria que seja, a julgar pelo meu, o carago também é basto reinadio. Não é por falta de sentido de humor que o homem se extinguirá, lá isso não. Parece que anda sempre toda a gente a brincar.

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Olha, por exemplo, esta coisa da Absolvição Final do Apito, ou lá como se chama. No fundo, a mera confirmação do que já estava mais que decidido à uns oitocentojanos. Percebe-se a demora, porque implica devolver dinheiro que se recebeu e, quem sabe, largar mais uns milhões em indemnizações. Pagar e morrer...

O que é soberbo, é a capacidade de toda a gente para desatar a brincar com isto. Começa logo por nós próprios, os Portistas, que entrámos imediatamente na nossa fase preferida: A esquizofrénica:

 - Yeeeeeyyy, inchem suínos! I-li-ba-dos! In your face, sons of a transatlantic ship of syphilitic whores (em estrangeiro, para os canhestros não entenderem. Alguns são grandes e matam pessoas e assim, diz que matam).

Por outro lado:

- Uiuiuiuiuiuiui, tanta água que isto traz no bico, mais parece um candeeiro a fazer um broche a um padre num vão de escada, numa noite de temporal. Por setiquinhentos (eu ainda sou do tempo em que o broche se pagava em escudos, diz que pagava).

Pá, anda tudo a brincar, certo? Caso contrário, preciso de ajuda urgente, porque estou a ficar lerdinho de todo. O que não seria uma grande surpresa. Vamoláver:

Primeiro, eu compreendo as comunicações oficiais de regozijo e as alfinetadas e isso tudo. Acho até muito bem, inchem. Outra vez! Mas sabemos todos que não se trata de uma vitória nova e, sobretudo, não vai fazer diferença nenhuma. Estes apitos estavam mais que acabados, até onde podem estar. Para os cento e cinquenta mil quatrocentos e catorze milhões, não muda nada. Para nós os cinco, também não.

Mas mais importante que isso, não há NENHUM motivo para que esta decisão tenha qualquer relação com o caso dos e-mails lampiões. Autênticos sessenta e nove do correio eletrónico.

O motivo pelo qual as escutas dos Processos dos Apitos não são consideradas como meio de prova, não chega a ser a ilegalidade na sua obtenção. A coisa pára logo no simples facto de escutas não serem meios de prova admissíveis num Processo Disciplinar. Seja no âmbito desportivo ou laboral ou qualquer outro que possam imaginar, incluindo instalar microfones nos vãos de escada da Catedral da Cerveja. APENAS em sede de Processo Penal se podem considerar este tipo de evidências.

Traduzindo isto para a língua da gente, a questão não é se as escutas foram obtidas de forma legal ou não, oh palhaços. Num Processo Disciplinar, não podem haver escutas, ponto final. Tipo, não se pode dizer que há problemas com mosquitos lá em casa, para justificar a intenção de comprar uma caçadeira de canos serrados. Sobretudo se mantém essa intenção de gravar "Adeujohvaitimbora querido vizinho do nono frente". Não vai dar.

Perante isto, o que sobrou dos Apitos foram testemunhas. Todas a dizerem que aquilo era uma treta de dimensões épicas. Menos a Carol. Acontece que a Carol era também conhecida por ser um salgadinho com bastante saída e pouca verdade. Vai daí, a coisa foi à vida.

Não obstante, a justiça desportiva - assim mesmo, em minúsculas - tratou de, em primeira instância e com grande celeridade, andar com as coisas para a frente. O grande, que não em tamanho, Ricardo Costa, arvorou-se em judge, jury and executioner e fez o trabalhinho encomendado. Para nada, afinal. Nem em Portugal - repito, NEM! - uma coisa tão mal atamancada poderia ir longe. Mas fez mossa e é altura de pagarem por isso.

Portanto, aqui na Tasca, continua-se a clamar por igualdade de tratamento. Mera jurisprudência, meus meninos. E estão enganados aqueles que pensam que jurisprudência passa a significar que os e-mails devem ter o mesmo destino das escutas. Nanananana. Jurisprudência é toda uma outra coisa.

Os senhores do Conselho de Disciplina, Meirim à cabeça - diga-se que foi um dos que sempre defendeu a inadmissibilidade das escutas - devem tratar de julgar desde já no âmbito desportivo. Porque as implicações penais deste processo não são para aqui chamadas. Nem sabemos se haverão consequências penais, como esperar por elas? Portanto, isso de "ai, agora vão dizer que nem vale a pena olhar para os e-mails por causa das escutas", não cola. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.

Tampouco é relevante a proveniência dos ditos e-mails. Também isso é uma questão que deverá, ou não, ser esclarecida no âmbito de um eventual Processo Penal. Para o que aqui importa, agora, o que deve ser analisado é o conteúdo e o que ele denuncia. Jurisprudência, caros senhores.

O que é necessário averiguar, é se, ao contrário das escutas, os e-mails serão admissíveis enquanto meio de prova num Processo Disciplinar. Desportivo.

Eu não sou acusa-Cristos, mas não estou a ver porque não seriam. Ora, se são aceitáveis para despedir chefes de família no quadro laboral, porque não seria assim quando se trata de mandar os lampiões batoteiros para os distritais? Pois, jurisprudência, né?

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Por uma vez, os encarnados demonstraram algum fair-play e reagiram ao enterro do apito com algum bom humor. Dizem os moços que ponderam recorrer. Para o TAD. LOL, brincalhões.

Sim, é uma piada, de certeza. Basta ver a argumentação, percebe-se logo que não é para levar a sério. Se os catraios dizem que há ali uma incompatibilidade por causa do Fernando Gomes - à época dirigente do FCP, hoje Presidente da FPF e maluquinho por SMS - não poderiam defender o recurso ao TAD, naturalmente. Porquê?

Opá, porque o nosso amigo Ricardo arranjou um tacho no TAD, capisce? Sim, esse mesmo. Reinadios os moços, hã? Caralhitos, credo.

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Soundtrack to case law: You won't fuck around no more...

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Nomes - Trilogia da Abelha: BI < 35


"São, definitivamente, as fotografias que me denunciam. Aquele tipo já um tanto velhote, afinal, sou eu. Ao espelho, não sei como, ainda arranjo maneira de enganar. À câmara, não. Esta é a minha razão.

Do alto da honestidade dos meus olhos, crivado das rugas em que já me reconheço, purificado pelos meus braços caídos na luta inglória contra a evidência, proclamo a tua eterna beleza. A permanente juventude em alguns dos teus sorrisos e em todos os passos. Recordas-te?

Guardas, rasgadas, ainda em ti as palavras? Pois sabe que, enquanto eu envelheci a cada clique, tu continuaste a flutuar em pequenos passos deslizantes. Entre tempestades de areia em desertos inóspitos, a tua pele o oásis em que, inesperados, nos encontrámos; perante as tragédias, a tua carne o abrigo das lágrimas e do fogo. É a essa Paixão que me consagro. 

Talvez seja esse o verdadeiro segredo, nunca saberei. Nunca saberás. Pode ser que uma estranha espécie de sinceridade - despropositada, tantas vezes - tenha sido capaz, por ínvio caminho, de fazer deslizar os teus passos sempre até mim. Como uma corrente suave, tão fácil de contrariar em duas braçadas vigorosas, mas que te leva sempre para fora de pé, em águas aparentemente calmas. 

E o fundo são remoinhos e fundões e monstros desconhecidos dos comuns mortais. Para ti, casa, castelo, rocha, trono, cadafalso. Aqui reinas, Minha Flutuante Majestade, sobre o belo e sobre o horrendo. Todos nós - fotografia, espelho e segredo - o teu Povo. O que, dia a dia, quantos deles sem intenção, continuas a salvar.

São mais palavras. Porque os olhos não te posso entregar, para que visses por eles o que eu vejo. E queria. Queria que pudesses saber da raiva de alguns gestos, de como enfurece não ser merecedor de assistir à arrumação do armário dos detergentes. Que é baixo e se conjuga com a tua proverbial incapacidade de dobrares os joelhos. De repente, o rapaz do espelho é o senhor da fotografia e há anos luz entre nós. Perco-te nesse espaço impenetrável da diferença da nossa condição. Resigno-me: São palavras e tu és vento.

Um dia, é possível que a tua carne me cante em tons outros, quiçá mais calmos, provavelmente mais lentos, e eu te fale da Alma. Somarei palavras ás folhas rasgadas, como se as colasse. Ora, como se me importasse como julgam as palavras. Não importo. 

Retomaremos a interminável discussão do Amor Eterno, morto; do Amor Incondicional, partilhado; do Amor Inevitável, que nos entregamos sem remissão, em dias marcados como se fosse um castigo: Toma, aqui tens a minha impossibilidade de não te Amar. A tua Cruz. 

A nossa conversa será arrastada, como pequenos seixos no leito do rio que corre em frente ao alpendre; pairará nas margens verdes, como as libelinhas; em ziguezague, como a abelha que nos entra pela janela aberta da cozinha, onde arrefece a tarte. Cheira a maçã e não nos calaremos sobre a Alma e o Amor. Até que eles possam acender-nos a pele, num súbito restolhar de flacidezes e vincos pronunciados nos rostos.

Ah, mas a língua, a língua é fresca e as mãos dadas são firmes. Conformados, baloiçaremos na inevitabilidade dessa entrega.

Podia dizer que te Amo por ser devoto dos teus glúteos. Ou que te vejo tão bela porque te olho a Alma. Invertia os fatores e continuaria tudo a fazer sentido. Seriam palavras, já sei. Essas que te maculam a íris quando me vês. As que, reunidas as exatas condições cósmicas, ainda te mentem sobre a minha idade. Podíamos, num assomo de loucura, dizer que nos vemos assim porque é isso que o Amor faz. Eu não vim dizer-te Dele ou da Alma! Só da carne, da pele e do desejo. As tuas e o meu.  

Sou devoto dos teus glúteos, sim! E tenho toda a nossa imensa Eternidade para te Amar. Inevitavelmente."

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No derradeiro brinde dessa noite, calmos ou confusos, lembrarei a folha que o Velho dos Sapatos me entregou hoje. A que decidiu retirar da ordem caótica do seu aparentemente inesgotável molho de papeis. 

Haverá uma brisa, mesmo que se fechem todas as janelas, e permaneceremos calados, deixando todas as palavras para os poros e os músculos. Ainda que seja apenas a certeza do teu pé encostado à barriga da minha perna. Estás. Inevitável. < 35.

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Soundtrack to B. < 35: I gotta have you, oh yes i do!

domingo, 9 de julho de 2017

Tutorial: Como fazer um podcast (inclui link para exemplo prático)

Vítor, o Cortador
Há pessoas que pensam que fazer um podcast é só juntar três palhaços e arranjar um microfone. A bem da verdade, diga-se que até pode resultar, mas é mais para um episódio piloto e tal. Se pretenderem continuar, é melhor que estejam preparados para dar ao cabedal. Enquanto especialista encartado - não confundir com encartilhado - o Tio Silva deixa-vos hoje os passos fundamentais que deveis seguir, para vos tornardes podcasters de mão cheia e começardes a faturar milhões sem conta, quais Ronaldos do éter. Ou lá por que via se espalha aquilo.

Antes de mais, atentemos por um instante na etimologia da palavra: Pod + Cast. O segundo elemento remete-nos imediatamente para a mítica BBC e os seus broadcasts. No sentido de transmissão, portanto. Quanto ao primeiro segmento da palavra - Pod - há-de ser o que parece, faço lá ideia. Temos pois POD + TRANSMITIR. Opá, pois claro que pode, have a ball dudes, alguém vos está a segurar, por acaso? Mas para o fazerem em condições decentes, observem as seguintes recomendações:

1. Material necessário

Microfone, palhaço, ou palhaços, que botem faladura e um 48k ou superior.

2. Infraestrutura

Aqui é que a porca começa a torcer o rabo. O que parecia fácil, vai-se a ver e é uma empreitada pôcomaijómenos da dimensão do Alqueva.

2.1 Esponja

Para que o som não fique uma trampa de proporções bíblicas, tem que se arranjar esponja de isolamento acústico. É melhor comprarem logo uns três contentores do material.

A bem dizer, só vão precisar de dois quadradinhos, mas nunca se sabe quando vos vai apetecer dedicarem-se ao macramé e já ficam com enchimento para soberbas, e mui garridas, almofadas.

2.2 Edredão na janela

As janelas são o Deusmalivre de qualquer podcaster que se preze. Porquê? Porque são de vidro, acho eu. E deixam entrar barulhos e pássaros e essas coisas todas, basto perniciosas. Como ar.

Se estão a pensar em calafetar portas e janelas, ficam desde já sabendo que isso é coisa para meninos. O verdadeiro podcaster não tem receio que entre frio ou saia calor. A sua única preocupação é a qualidade do som, em beneficio do putativo ouvinte.

A solução, a um nível amador, passa por cobrir todas as janelas - incluindo as do vizinho, por uma questão de segurança - com edredões. De preferência, edredões com padrões às cornucópias, como as blusas das velhinhas. Não sei, parece-me que é mais fácil encontrar edredões pirosos.

Se quiserem ser um pouco mais profissionais, é melhor retirarem as janelas e construir toda uma parede em betão, revestida a esponja (ver 2.1). Dá mais trabalho, mas aproveita-se a esponja que sobejou. E ainda dá para duas ou três almofadas.

2.3 O soalho

Agora que o vosso microfone já está aconchegadinho entre as esponjas, salvo seja, e que as malditas janelas deixaram de ser um problema, estão prontos a começar o vosso podcast, certo? Errado! Olhem lá para o soalho. Isso é chão que se apresente? Shame on you.

A tijoleira é a verdadeira Némesis do podcast. Desde logo porque é desconfortável para o podcaster, sobretudo no Inverno. Quer a pessoa andar a passear-se descalça, num quimono de seda pura, enquanto avia Margaritas como se não houvesse amanhã, e é um gelo nos pés que não se pode. Capaz de se constipar o individuo. E também diz que fájeco e que isso estraga o som. Diz que faz.

O melhor é levantarem o chão todo e instalarem um soalhozinho flutante, em madeira nobre, com aquecimento por irradiação ou lá como raisparta se chama aquilo.

Para aqueles com pouco tempo para a bricolage, recomenda-se o método R.I.O., conforme aplicado ao Aleixo.

3. A agenda

Se estão a planear um podcast com mais do que um interveniente, há que levar em conta o alinhamento das agendas, de forma a que se encontrem à mesma hora, no mesmo
local. De outra forma, antevejo alguma dificuldade em concretizarem o projeto. Mas cada um sabe de si, pois claro.

Está bom de ver que esta é a parte mais fácil e que não requer nenhum esforço e não atrasa nada. Apesar de certa e determinada corrente que advoga que é esta a razão do aVASSALador ( wink ) atraso entre o primeiro e segundo episódio do melhor podcast do mundo, de entre todos os que são gravados num prédio de Gaia, de frente para a estação dos comboios. Uma delas.

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Agora que já sabem como fazer um podcast, é melhor não se meterem nisso e desatarem é a ouvir o novo opus do


Conforme prometido, está espetacular. Mete a Traci Lords, o filho do Zlatan com o Crouch, pornografia Espanhola, mariachi, refugiados e trabalhos de casa. E futebol, mas pouco.

Quem gostou do primeiro, não pode perder. Quem não gostou do primeiro, deste vai gostar de certeza. Quem não se deu ao trabalho de ouvir o anterior, é bom que não preguice neste. E quem nem sequer sabe do que se trata, está na hora de dar todo um novo colorido às vossas tristes vidinhas.

Depois, respondam aos desafios, utilizando o endereço cavani@porta19.com e deixem os vossos elogios e expressões de basta admiração na caixa de comentários. Se forem gajas bem boas, mandem nudes. Hã? Não pá, tu não, ai a merdinha já!

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A Culpa é do Cavani é um podcast de regularidade dúbia, acerca de assuntos, em tons azuis e brancos carregados, estrelado pelos inefáveis Jorge Bertocchini e Jorge Vassalo. Amáijeu.

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Soundtrack to podcast: Vamos ao trabalho, sem demoras!

quinta-feira, 6 de julho de 2017

A Divina incompatibilidade II - Juro que foi sem querer

Vejamos, do ponto de vista sensual, não se pode dizer que seja grande espingarda. Preferiria, com bom grau de certeza, uma esguia e verdejante gafanhota. Talvez uma elegante centopeia, nas múltiplas possibilidades das suas inúmeras mãos; mesmo uma compacta e resistente baratinha tonta. Já para não falar de uma impossivelmente bela borboleta, que essa não é da minha liga. Das louva-a-Deus é que fugia, como o Diabo da cruz.

Mas bem, é isto: Sendo besouro, é uma besoura que me toca. A grande vantagem é que, nem sei bem porquê, ao vê-la assim - exposta, pronta, resignada? - apodera-se de mim um sentido de propósito, de Bem Maior, uma coisa que não sei explicar. Nem era expectável que o pudesse fazer, na limitação deste cérebro minúsculo. Só os seres cabeçudos devem poder explicar os Grandes Mistérios da Criação, imagino. 

Por exemplo, aquele da lenda do homem que se transformou num de nós. Qual seria o nome, mesmo? Kaka, acho eu. Nome estúpido. Fica-se logo com vontade de fazer dele uma bola de esterco. Raio do instinto e da genética e o camandro.

Ora bem, deixemo-nos de tretas e vamos é a isto, que ainda há muita caca para rebolar hoje. 

( Eheh, se fossemos uns bichos mais complexos, era gajo para ter alguma piada, eu. )

Pumbas, cá está, ereção instantânea, apesar da falta de interesse na moça. Ah, as maravilhas da animalidade. Siga, que depois de começar, deve-se dizer que é basto agradável. Enfim, não morria triste, lá isso não.

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- Estava um pedacinho relutante, a criatura. Não estava, Senhor? - De joelhos os dois, no infinito soalho envidraçado. Tipo, um teto de vidro, mas ao contrário.

- Parecia, não parecia, Pedro? Deve ser um bocadito lento, até para besouro. Mas pronto, já está. Contempla a imensa maravilha do Universo. Estes dois pequenos e feiosos bicharocos, encerram em si o poder da renovação da Vida. Deles porvirão outros, ainda que iguais. E assim continuarão a missão que lhes entreguei no meu Grande Plano.

- Rebolar bolas de esterco, portanto... - Apanha um calduço.

- E então? Rebolar esterco é um trabalho indigno para o senhor Pedro, é isso? O campeão da pescaria, o Rei do lançamento da rede, não respeita as criaturas que tratam do esterco. Muito bem, sim senhor. Se calhar, vou extinguir os besouros e deixar acumular a trampa até cobrir ajórelhas do senhor Pedro, o Pescador. Depois troco-o pelo senhor Bob, o Construtor. Pode ser, reverendíssimo anormal? - O outro escuta o raspanete de cabeça baixa, em profundo respeito e notório arrependimento.

- Não foi isso que quis dizer, Senhor. Desculpai-me. - Cai-lhe uma lágrima sentida. O grandalhão passa-lhe um enorme braço pelos ombros.

- Deixa lá isso, pá. Admira a beleza da simplicidade, o engenho do método reprodutivo, há Amor neste ato do instinto. Porque Eu sou Amor em todas as criaturas de Mim, Pedro. De alguma forma. Sempre. 

- O Senhor seja louvado. - Ergue os braços para o Céu. O segundo, naturalmente. O Céu do Céu.

- Da pequeníssima semente que lhes deixei, em forma de ínfimo cérebro, nasce o comando da Vontade que espalhará uma nova sementinha. E assim por diante. Ah, está quase, Pedro. Vê como todo o processo conduz a este estado de quase êxtase. - Fecha os olhos, a saborear a Perfeição da Sua Obra. - O culminar da própria Vida, que não é mais do que... - Volta a olhar. - Ser esmagado por uma roda de automóvel?

- Ouch, pobres besouros. - Dá uma palmada na testa.

- Mas quem foi o palhaço? - Irado, como se notará pela trovoada. Seca, que está o responsável das águas ocupado nestes entretantos.

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Espero que o cão não saia. Ah, linda menina, já aprendeu que quando sou eu a chegar, não é para desatar a correr rampa acima. São espertos, os bichos. Ora deixa cá endireitar a traseira. 

( Eheh podia fazer uma série de piadas com isto. )

Agora destroce tudo e aí vai ele, rampa abaixo. Saiam de trás, bichos. Às vezes, o gato tem a mania de se pôr a espreguiçar à entrada da garagem, mesmo quando a pessoa está a meter lá o carro. 

( Eheh parece o Quim Barreiros. )

Qualquer dia, arranja-se uma casa com uma garagem sem rampa. Sei lá, faz-me uma certa confusão não ver bem por onde pisam os rodados...

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Aqui, a Divina incompatibilidade original, para quem gostar de seguir séries. Podia criar uma tag, mas está a dar-me a preguiça.